sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Perdição IV

Saberá,
Morte vem do tempo que falava versos soltos,
Palavras concretas nunca destilaram ventos,
E a infinita paciência cessa com o peso do cobre que cobre o corrosivo tecido,
Tecido entre os tecidos de juízo,
Julgam ter sonoras evidências,
De vida fora da vida.
Saberá,
É o feto que destrói o mundo,
É o esperma e o óvulo do máculo da humanidade.
Outrora, sementes gastavam realidades, presas e galhos em velcro, seda...
Ceda o que for.
Me desgastei outonos enquanto
as oliveiras secam nos rios ao longe, como o Egeu em magnitude.
Cadeia de feixes-luz, contraportos,
Em massivas faixas solares me entrecorto em três
ou mais,
Tanto faz o que se pensa, não pensa-me mais.
Saída vermelha.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Minos

Caçava o ser seu duplo, em um vitral de quartos disperso em salas desertas e paredes inacabadas, sem definir, em suas arrebarbas, portas e portais, encontros ou desencontros. Este que saía ou entrava quando queria; este que se entrecasava com os adornos inexistentes da sinuosa cortina de barbas brancas, que as aranhas deixavam pela borda do poço redondo e lunar. Lua branca, lupineal, uma forma esgarçada e temerosa de romper inegáveis desejos de ser outro ou ser salvo, enquanto somente se perdia dos e os brinquedos de que as imagens construídas de algo invivido formatavam-se. De maior súbito, escriturou-se a cada lugar e passo que, correspondentemente calculava por ser este, por anos, sua única forma de ver como passava o tempo utopicamente entre a estrela maior e ele. De vez em vez vinha, por qualquer lado igual, infinitas vezes uns seres, humanos, pessoas, pessoas. Tinham cara diferente à minha, sem cornos, simples serpenteados corpos fracos, sem jeito algum ao se deparar o seu redentor e sem a vontade de estar embebidos de sangue em poucos passos ao melhor que eu poderia fazer. Um príncipe que se preza não mistura teu sangue aos outros, mesmo que as vontades sejam Deles, ou mesmo o raio de Zeus caia sobre suas vontades. Ao menos não o faria, tenho pena dessa parte do mundo: esses seres podres, profanos e quase assim lúdicos. São belos às vezes, sim, são as vezes belos; sinto em ver o cheiro de cada pele caída que demarcam assim, as diferenças entre as paredes sem remos. Por cada par de pais eu via, de longe, ao sombrear do templo no tempo o mar, e seu cheiro salgado de véspera, chuvosa ou solar, algo que é internamente ornado para separar seres superiores de inferiores. Por Poseidon, essas águas ainda hão de ser minhas. Muitas vezes eu penso em me re-achar por aqui, e até encontro – dois ou mais eus – não tão bons quanto Eu. Mesmo que a cada espelhadiço argila e pedras somem e tomem posso dos vasos, iguais aqueles que a mãe-rainha tem no castelo, jamais haverá algum igual. Sou como a estrela mor, e meu nome, Asterion, é único também. Ao que sei, um pobre rendido me disse que um dia também terei minha chance de me unir ao mais alto poder divino. Mesmo que numa súplica, que seja de forma mais irreversível, espero aqui por esta ascensão. Tenho enquanto o outro o ser que toma a forma à outro e em outro, a possibilidade de ser uno. Mas espero mais, até que o fogo da última tocha do templo se apague e leve, para os astros, este sopro leve de luz.

(Inspirado no conto "A Casa de Asterion", de Jorge Luís Borges.)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Perdição III

Delícia ar convexo,
De vez em andaimes,
Sopra o terço do universo num único verso.
Em bíblicotécnicas,
Desevoluções convergem pensamentos,
Folha de seda,
Capa de couro,
Letras douradas e cetim.
Signos, palavras soltas,
Escreveste tudo, uma história meio-fim-de-tarde,
Num grande olhar a desenganar e quando
Esverdeado o terço passo
parte em vão,
A xícara rompe a asa do anjo caído,
O café se perde.
Mais água em ebulição.

Perdição II

Ia apenas pelo lago,
Não outro e sim, 
este lago.
O lago dela, a passarela,
O Sol
embrasado,
Cadeia do tempo passado,
Pássaro a passear pelos ares
andar à andares,
Pesado ar frisante,
O calor do gelo que caíra no congelador.
Não achei nada que procurava,
A dor da casa,
Aquela dor.
Àquela.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Perdição I

Era tudo sonho de uma noite que sonhado
sonhou o sonhador romântico,
Eu perdido, eu achando
que o achado era Eu,
Que o melhor era eu.
Quem é?
Quem és?
Quem quer?
Nem que a chuva caia, nem que o raio pare.
Meu escudo é a força da verdade,
E se ela dói,
A espada fere-me.
A magia é o contratempo da maldade.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Lapso V

Suba,
Rua,
Salto,
Quebrado,
Esquecido,
Esquecida?

Mais-Valia,
Mais-Vadia
Mais-de-Gozar,
Mais-que-a-Vida.

Trocados no bolso,
Falo na boca,
Falo com a boca,
Falo da boca.

Aos pedaços,
Despedaçados,
Abaixo da linha,
Do tesão,
Do prazer perdido,
Na multidão.

Lapso IV

Fumaceei os deslumbres,
Esfumacei.
Desenhei em preto o branco no branco breu do preto,
Passeei,
Empreteci a dengosa cortina no cortinado acorrentado em mim,
Preso na pedra da porta preciosa.
Alcoolizei a dor em litros,
Desfiz estrelas em pó,
Inalei,
Viajei pelo cosmos.

Lapso III

Nudez infantil nas janelas e,
Nos vidros, das passarelas
do inferno do deus Cristão,
Nas casas-sacras dos apostulados,
No réquiem mais tenebroso,
Orai,
Relute contra o corpo teu,
Pai,
Refaça o refluxo ganancioso,
Ganhe mundos,
Desfaça gente.
Nudez infantil nos vitrais,
Pensamentos, drogas,
Desenhos astrais,
Anais,
Totais,
Mais um problema,
Para as pessoas,
Banais.

Lapso II

Resvalava a tenebrosa terra temida,
Que temia o jovem teimoso.


Sobrava a linha, o corte, o tesouro,
E a Lâmina mais cortante
do seu barbeador,
Sombreando de vermelho-coração
as bordas da minha janela,
O Chão,

A doce desilusão,
Da estrada alheia ao meu desabor.

Lapso

Aquele olhar não era pra ir,






Pois sempre te quis aqui e ver deixar






seu rosto na chuva,






Faz meu desejo assombrar




Os lençóis da minha cama!

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Noite Fria

Simples.
A cal,
A terra,
A dor,
Tensa.
A mata,
Que mata,
O amor,
Dura. 
A passagem,
Nesta miragem,
Da palha,
Amarelada.
A tarde,
Cor cinza,
Cor nada,
Coroada.
De flores,
De pássaros,
De imagens,
Sabor.
Um doce,
E suado,
O bagaço
O homem,
O espaço,
É velado,
Do meu
pro seu
Cobertor.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Ciclope

É doce pedaço de sonho,
Pedra inerte no mar de fantasias
Pedra aquela que não afunda entre as plantas aquáticas
Plantas desafiadoras, plantas lunáticas,
De luas meia lua, meia hora, meio tempo
E meia cáqui, preta ou branca,
Tanto faz.
Calado, calo-cansa, casa-tensa,
Encontramos alguns refúgios, sala-adentro, casa-afora.
Fora menino, fora sorriso,
É homem de pedra,
Vitorioso, homem meu,
Vence o ciclope vida,
Sonho teu.
Volta que eu te espero renascer,
Vem que eu te quero pertencer.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Carne-Mãe





Arquitetou a ponta do atame mais mortal,
Com as bordas desse imoral
coração alado.
Perfurou com a maldade mais insana,
Com o desejo mais profano
e animal, total
desprendido do metal perdido entre os perdidos,
Solitário entre os presentes,
Mil razões para deixá-lo morrer.
Caminhou até a luz, olhou três vezes ao Céu.
Supôs que a vida esta,
Era só paisagem e passagem indiscreta,
Perfurou o órgão besta-fera,
Debruçou sobre o sangue a salvação.
Hoje a noite é nossa.












Hoje o tempo é dócil.












Hoje o fluido é Carne-Mãe.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Interesse Sublime



Sonhei incondicionalmente com este homem que povoa o meu corpo e mente.
Ora garoto, hora de homem.
Entrava em meu cobertor, sombreava de luz a existência dessa sinergia.
Ah, o desejo! Busque mais me encontrar!
- Lembra daquele plano secreto? Lembra do beijo secreto?
Sei que sabe do que eu falo, falas o que sei ouvir. As vezes.
Entre corpos, portas, copos, luz e sombra; casa, casaco, cama, caminhos...
A porta está sempre aberta a te esperar:
-Vem! A hora é essa e quando sequer pensar, meu bater orgasmico de coração estará com o teu.
É um daqueles sonhos-realidade, conscientemente singular, num coletivo de dois. É uma única canção com todas as notas.
- Não! São simplesmente eu e você.
Desconstruindo a liberdade alucinada e imprevisível da sociedade insaciável de querer julgamentos.
- Libertem-se dessa culpa, outros seres. Não nos doemos por vocês mais.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Simbolismo


Leve era a plumagem do rapaz
Sagaz,
Indecente com cigarros a bailar,
Ninar,
Bonecas enroladas em tecidos de cortes
Atrás,
Casado com o filho do vizinho do pai
Capaz,
De olhos roxos pela rua a oferecer,
Seus lábios,
Para que outros homens ponham-no em lugares
Não convencionais,
Anais,
Sujo de esperma ele passeia pelos carros
Saltar,
Estigmatizado pelo sadismo e fezes que outrora já deixaram
De manchar,
O vestido velho da mãe também puta,



Vai dar,
Vai dar,
Vá dar.













Trabalho.


domingo, 21 de agosto de 2011

O Grego Perdido


Encontro, canto,
Quando choro
sofro calado.
Dentre corpos,
Intensos, sedentos,
Absorto, inerte,
Encontro canto.
Sobra tempo,
Reescrevo lições,
Perco desenhos
entre nuvens,
Pássaros voam,
Terra geme,
Corpos estranham,
Estranhas canções.
Lúcido, leio
entre cortes,
Confundo ruas.
Canto, encontro
cantigas caídas.
Encontro canto.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Indigente


Faíscas saem dos olhos
É o olho que apaga as ideias,
Sombras, travestismos e
roupas inadequadas conforme a lei.
Casa, comida,
Chão, teto e paêtes,
Fissura na parede, o teto desaba
a rede, o tempo e o nada.
Contarão ao velho
a mesma página amarela.
Contarão para que todos saibam,
Sem medo, sem documentos a expor.
Indigente somos,
Na indulgência torpe.
Abaixe o cano da arma,
Perca a ereção,
O tesão da cama limpa,
Mas o amor, não.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Antropófago Eu?





Coma-te a carne
Coma o ser.
Entre e coma, o coma.
Coma é ter.
Afaste-se dos dentes,
Quentes,
Dementes entre esquinas indecentes,
Ardentes,
Dentes,
Coma.
Rumine aquilo que abstrai das calçadas,
Ingratas, caladas, elimine.
Transite entre os céus,
Anéis,
Em mãos
ao léu, 
coma o céu.
Coma o cosmos em lona,
Coma a vadia, a mãe
da vida,
A vida da vida
insista.
Coma-te a mente,
Cadente,
Ordinariamente,
A mente,
Decadente.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

E Numa Dicotomia Dessas...





Eu,
Com cara de teorema,
Sem solução, nem gabarito
me tombaram.
Caía na via da vida, postulado
pelo matemático desconhecido,
Por mim, equacionado.
Tombaram o letrado!


... E de Aristóteles, sei
Mímese e Catarse.
Números: desastre.
Sartre, me ajude:
  - Quem é Fermat?
Descarte.

domingo, 29 de maio de 2011

Aos Três: Pecados - Parte 1


Certeza. Essa minha mulher era louca. Simplesmente não sei o que aconteceu em cada folhagem que ela cortava do jardim inerte, perdido entre cortes de tecido vulgar pendurados no varal e um cheiro estranho de comida que vinha da cozinha, sempre milimetricamente limpa. Desde que Andréia se foi, há dez anos atrás, ela cuida de minha casa como tal. Minha antiga esposa morreu num acidente de carro, numa fase onde eu já não tinha grandes amores por ela. Quem mais sofreu foi João, meu filho, que na época tinha cinco anos, completando quinze essa semana. Porém Flávia é muito dedicada como segunda mãe: se preocupa com horários, com carinho, banho e tudo mais. João desenvolveu um apego por ela que me faz feliz, pois dá gosto de ver a forma que o menino trata a mulher. Deveras, ela é uma bela mulher e qualquer homem quereria tê-la por perto, sem sequer saber de todos os seus dotes. E sua loucura, claro.
Flávia volta e meia reclamava de dores durante o sexo. Tudo bem, não vou negar que ela me dizer que estava sentindo dor por que meu órgão é grande demais me engrandecia. Aí que eu metia mais forte, sem dó. Mulheres foram feitas para aguentarem essas coisas, é da anatomia delas. Ultimamente nada mais falava, somente atendia meus desejos. Uma mulher com todos os atributos que um homem pode desejar, e ainda acostumada com meu jeito as vezes, rápido ou rude. Ela gostava disso, via em seu rosto. Outrora, me preocupava se não fazíamos muito barulho: não tínhamos mais criança em casa, João já era um quase homem. Alto e forte, parecido com o avô, meu pai; mas os olhos e cabelos da mãe. Um rapaz bem aparentado, iria ser um homem bem sucedido.
Estranhei no dia em que cheguei em casa e Flávia não estava. Sobre a comida um bilhete, dizendo que estava precisando de se purificar na igreja pois se sentia tentada pelo demônio a cometer um crime. Achei tudo aquilo exagerado em demasia, nem me importei. João já estava dormindo, então jantei e fui deitar. Flávia devia estar assistindo televisão demais, e esses canais baratos sempre falam baboseiras e exageros cristãos. Não que eu não temesse, mas acho que esse interesse no Diabo faz com que ele esteja sempre mais por perto. Prefiro me concentrar no futebol, uma cerveja; meu jantar e cama – sozinho, e ir dormir. Sempre mais interessante. Um homem sabe se resolver sozinho quando a sua mulher precisa de um tempo.
Voltara tarde da noite, como sorrateiramente caminhara até a cama em poucos dedos. Longe, ouvi barulho no banheiro de João e pensei: meu moleque vendo alguma pornografia até essa hora e minha mulher na igreja, chegando com cheiro de flores no quarto. No mínimo alguma flor de velório que por ventura aventurava-se ela, entre as ladainhas e o louvor. Estava achando tudo aquilo muito bom, até por que não poderia ser diferente. Foi aí que algo me causou estranhismo: a mulher me negara uma trepada, alegando estar cansada. Será que ela está nessas ceitas de sexo só para reprodução? Espero que não, pois quem não tem em casa procura na rua.
Por vezes ia à um bar perto de casa com amigos meus: minha esposa nem sonhava. Eu concordava com o Vasco, grande amigo que sempre dizia - “A bíblia e a igreja são meras alegorias ilustrativas, por isso as mulheres são tão mais engajadas que nós. A elas serve de auto-ajuda e a nós, auto ajuda chama-se punheta que temos que praticar quando elas resolvem que a penitência delas é a nossa abstinência sexual” – e eu pensando, nesse momento, que ontem fui dormir de pau duro por que Flávia me negava fogo. Se bem que, eu tenho a mulher que quiser – por qualquer cinquenta pratas – e sem me pedirem carinho ou reclamarem de nada. Assim, matam minha vontade e não preciso gerar desconforto em minha casa. O sexo representa para os homens oitenta por cento da relação – dos outros vinte, dez são futebol e outros dez trabalho, que é justificado com o cansaço e revigorado no fim-de-semana. Por isso pensei em minha mente que hoje era um bom dia para uma foda na rua, que fosse em meu carro, com uma puta qualquer. Mas antes passaria em casa pra pegar um casaco e o cigarro que esqueci. Então resolvi voltar em casa antes de mais nada.
Cheguei e estacionei na frente sem alarde, de repente Flávia estaria dormindo e poderia questionar meu retorno e saída novamente. Entrei em casa e ouvi apenas o som do quarto de João a tocar “Essa moça ta Diferente” de Chico Buarque. Pensei que realmente estava passando da hora de apresentar ao meu rapaz uma mulher e tirá-lo um pouco dessa vida de livros e música popular brasileira, que ao final quase me soava pederasta, pois a maioria dos cantores que ele ouvia cantava em eu-lírico feminino. E com essa modernidade toda do mundo, será o pior castigo que meu filho fosse viado. Vejo os amigos de escola dele todos com namoradinhas e até no bar que frequento tomando cachaça e se divertindo. João sempre inventava desculpas ao telefone para não sair e ficar estudando, principalmente nos últimos meses. Tenho estranhado pois, na idade ele eu só pensava em comer alguma guria da sala, ou da cidade ou do mundo. Minha mão sofria cinco, seis vezes por dia, e por vezes meus pais me pegaram com a mão na obra. Realmente era a melhor hora de transformá-lo num verdadeiro macho.
Peguei os cigarros e o casaco em meu quarto, e comecei a achar engraçado os sussuros e gemidos que se misturavam ao som do mpbista – de fato algum filme pornô rolando, desses bem sujos e mal feitos. Achei por bem então ligar a luz e chamar por ele, para que não fosse tão constrangedor. Porém de longe reconheci uma peça de roupa atirada ao chão do quarto em meio à cuecas e meias sujas. Era um vestido que havia presenteado Flávia a poucos dias e então a cena a seguir foi a mais grotesca da minha vida: Flávia cavalgava loucamente em cima de João, que comia minha mulher gemendo como um cão. Saí rapidamente do ambiente, pois não podia acreditar que aquele filho de uma puta morta estava comendo a minha mulher – sua madrasta – e ela, uma vagabunda metida a crente fazendo com ele o que comigo nunca havia sequer feito.
Minha mente girava. Eu não pensava em nada a não ser matar aqueles dois vagabundos que estavam a me desonrar. Por um momento entre o gole pesado de rum que tomei desejei que João fosse viado. Ao menos assim resolveria com uma surra e um psiquiatra. Agora teria que resolver à minha maneira, e com todas as balas que puder descarregar do tambor do meu antigo revolver, que sabia eu – um dia – serviria para defender a minha honra. Certeza.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Saudade.


Não sei quanto tempo me resta ainda na corrida da vida - se muito ou pouco - só sei que numa curva qualquer sonho em reencontrar você. Sinto falta de cada detalhe, cada carinho e gestos que só você tem.  Quando eu era pequeno, sentia-me inspirado em tudo o que fazia de bonito: da comida que preparava, dos sonhos que me ajudava a interpretar, das lições de caligrafia... Da forma com que mudava as coisas ao nosso redor e guiava minha vida, passando por cima de tantas outras dificuldades. Hoje eu choro, queria teu colo e dizer tudo de maravilhoso que tem acontecido comigo e como eu queria dividir cada momento desse com você. Você que sempre foi minha representação da sabedoria, meu apoio até no que a maioria julga errado. Você sabe o que eu sou, como eu sou e quem sou eu. Temos muito ainda por fazer e por fazer, mas Mãe, queria muito que estivesse de volta ao lar. Não nesse lar, mas num lar que fosse meu e seu, onde vivêssemos essa louca vida, com todas as dificuldades antigas e as virtudes novas. Te amo absolutamente e dói uma dor tão intensa, que todas as outras dores parecem nunca ter existido. Sei que provavelmente não lerá esse relato, mas quem ler, entenda: tudo o que eu sou devo a ela e ao eu que surgiu, do que ela criou. Minha mãe, minha guia.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Hoje


Há sempre tempo para viver. Cada dia que renascemos - no raiar do Sol - nos preparamos para depois do seu crepúsculo renascer, diariamente. Esse tempo é a incógnita do ser humano, a nossa esfinge pessoal: aquele enigma que pode nos tornar reis do Cadmo ou devolver a infertilidade à terra. Mas todo reinado tem seu custo, e todo custo, seu esforço. O importante é sermos parte desse aglomerado de relevâncias para a vida seja de sementes que virarão árvores. Seja nesse alvorecer ou no próximo, eu existo para ser alguém melhor, para fazer algo a além de respirar. Quero ser maior, e se pensar bem, maior não é pelos outros e sim por nós mesmos. Devemos a cada amanhecer sermos a nossa maior conquista, e o nosso maior ideal. Faça do próximo renascer a sua maior aventura; a sua maior vontade; a sua maior força; o seu maior desejo; o seu melhor sorriso. Hoje mais que ontem, amanhã mais que hoje.

terça-feira, 17 de maio de 2011

A MpB em Prosa Barata #2 - Lua, Memórias, Verdades.

"Eu só, no apartamento, escrevendo memórias no velho computador.." Vôo de Coração, Ritchie

Tinha - e sempre teremos - sim, uma lua-mor. A mais bela, esta do ciclo lunar, fez-me voar mesmo aqui sentado, nesse quarto semi-vazio, desejando ser preenchido pelo que nosso amor pode causar. Escrevia tudo, num antigo computador empoeirado, o mesmo que reproduzia uma canção em lá maior; lá onde meu coração planava de encontro ao teu. Eu com asas-penas-caneta-cama, sentado meio desajeitado, e essas memórias vagueantes me envolviam como um mistério, o mesmo que sempre entoava sorriso teu à luz do dia, ou da fresta da janela que eu fechei, para que não incomodasse seus visionários. És o homem que pensa em todas as coisas que ao menos, neste momento fazia todo sentido a me fazer rir e entender o quão simples e absoluta pode ser a vida de dois corações que só querem se aventurar livres de quaisquer desdesejo, desdesejando ou mesmo, sequer pensado entrepensamentos pensantes, pesares, pesados ou olhares alheios. As histórias repetem-se novamente sempre, numa velocidade estonteante que não percebemos? Dessa vez, como poucas vezes, vou discordar do poeta da cidade-cinza: é preciso ir além, e ver a singularidade de cada um. A catarse é diferente em cada gesto, e isso depende da óptica que cada um consegue absorver das mímeses retidas em nossos atos, atitudes - autos - enebriando as casas, estas feitas de escolhas; escolas estas que me fizeram este vôo de coração. E eu entrei pela janela mais próxima, invadi teus sonhos e sonhei junto, que acordava ao te lado. Tem que ser diferente o que cada um sente, cada dia - dia valendo viver. As luas não serão nunca iguais, ao menos não no que nos é permitido ver. Eu voltarei a compor duas, três linhas, não mais que isso; e buscarei - ao fundo do que eu chamo de único - o sentimento mais serpenteante e sutil. Este, entregarei em carta salva, lacrada... Ou perdida numa mensagem direta.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

A Foto e a Ave


Aquela foto amarelou. Era mais uma pobre lembrança esboçada em papel de baixa qualidade, severa; mas sem o ímpeto dos guerreiros gregos, com suas musas e seus soldados bravios, soltos no mar de sangue e arte. Era apenas uma singela foto do dia. Aliás, o dia tem tido meras relevâncias desde que o pássaro se foi. E metalinguístico dizer que eu não verbeio mais como antes, nem ao menos substantivo as coisas com a mesma força indireta? Parece-me muito mais catártico. Enobreço empobrecendo as palavras num vórtex de polém que sentimos um dia desses - "margaridas ou damas da noite" - não importa. Era o doce ao ar, eram damas mas não messalinas e o meu corpo desatinava num querer, além das eternas vias perdidas no canto da ave. Seu cheiro, o que não sai das narinas, é muito melhor e mais sutil: tem a leveza que espero, tem os dias contados na palma da mão e no andar da carruagem. Essa, é uma épica tragédia em três atos simples, mas que nunca serão desvendados por aqueles que não sabem o que é amar e ser amado. Essa epopeia é a vida, e de que vale esta sem amor? Ele une as coisas ao redor da mesa, do mar, do céu, de nós... E lá longe vai novamente a ave. E se você não fotografou, amarelou a tarde praieira no planalto central.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Casa





Simples, eram as palavras involuntárias que desbocavam dos olhos do amado.
Incompreendido, seriam os dois se fossem descobertos.
Sutil, é aquele aperto de mão disfarçado, ou um sentar ao lado, sem poder dizer sim.
Indecente, eram uns pensamentos que rondavam cama ao lado, calados, inertes.
Certeza, é do nosso amor incondicional e de tudo o que realmente importa.
Desejo, é o que me arrepia a pele quando te vejo
e sendo simples este ensejo,
Posso pedir em breve, três desejos,
Para um gênio da lâmpada qualquer:
Que faça a nossa única razão ser um do outro;
Que tudo ao redor sejam detalhes dentro do nosso tesouro;
E que nosso maior ouro seja o sentimento único entre nós,
O amor.
Simples são as vontades entre dois corpos cúmplices, 
Incompreendidos,
Sutis,
Indecentes e certos
do desejo que querem que seja sempre,
Sua casa, seus lares.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Leve Reflexão de um dia Solar


É certo que havia sol. Era um forte e caloroso manifesto de brasas, que entreparedes e tetos, bancos e árvores, não impediam as cascatas d'água que despencavam de meus poros. Um ar qualquer, um passo a mais: um delírio franco esta manhã, onde é possível que eu não esteja preparado; porém a assertividade é clara, num eu-cego pelo exageiro da luz amarela. Caminhos, caminhamos: eu e minha alma sua, suada a soar de certidões e gritos compostos. Ser, eu.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

F(r)esta



Como passará, 
Este dia assim,
Azul celeste,
Sul, prece,
Notável de construção em nuvem.
Enluará, em luar
Sol, soma
fogo e cinzas;
Força dos corpos,
Entreolhares,
Entrearbustos,
Pelas casas e pelo campo,
Na anatomia dos seres:
eu espero.
Categórico, beije-me.
Beija esta boca que é tua sim.


Passou, este dia
assim azul sem prece.
Só pedi em linhas retas
e versos simples,
O eu-você,
Em mim.
Feche os olhos e vamos leve embora.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Locus Interno


Depois que o tempo desentendeu os sete segredos dos homens virtuosos e, a terra, se decompôs em sete vastos e largos campos de areia, a água se desprendeu chorosamente dos olhos-mãe das casas-útero, onde cada gota fazia-se brilhante mais que vidro, vidrificando os dedos insanamente,perdendo linhas de raciocínio e enviando aos marinheiros de prima passagem seus códigos e suposições; eu reabri a mente.
Entretanto, quantos monstros e temores coagidos com os tremores procuraram alcançar céus e marés desvirtuados, embebidos em caos e relva; selva intrincada, intrínseca nos pensamentos dos pensantes que antes chamaram-se pensadores?
Quantas manhãs eu perdi em casa, enquanto fora daqui o mundo girava, tudo explodia e eu continuava a ascender este plano para um outro plano, que nunca contei à ninguém?
Muitas vezes disse não, quando o sim resolveria e me traria a paz eterna?
Quantos mares eu abri, entreolhos, congestionados, contextualizados, em peças de um souvenir qualquer hiperativo e hiperbólico, esfumaçando em dezenas de cores os sentidos, todos?
Sebressaí eu, morando em mesma moradia, contando casos entre tempestades diversas, minha verdade quase universal?
Contei mais inverdades que omissões enquanto tudo desabava dentro de mim?
Separei, milimetricamente, sete vezes as sete palavras, entre as sete virtudes; sete perfumes; sete léguas; sete lembranças... Sete seres?
Essa cidade passa o tempo, conhecerá seu fim, mas não o meu. Não deixarei que me acordem mais uma vez.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Sentidos


O cego tateava, tateava. Chateava a velha, que passada, passava entre os bosques de cor sepitídica e contornava a relva tristensa da tarde salina, quase despenteando as samambaias de cor verde-sem-breu. Alguma água havia nesse ar descolorado, despercebendo mil criações que o cego fazia quando seus olhos, dez, estavam nas pontas de seus dedos a ver tudo o que ele tocava. E tateava, tateava, o cego assim buscava seu apogeu criterioso, no mistério daquilo que é desconhecido a cada ser. Dentro de si, uma ânfora de ar se deglutia em três, um coração e a mente mais aberta que qualquer olhos-vivos poderia ter. Enxergava então, o cego tateador, o que as boas pessoas de zelo comum não viam: a bondade, as coisas da natureza humana, a maldade, a decadência do pensamento humano e o declínio do saber, em detrimento da analogia mais simples: o aprender, cada vez mais. A velha, esta, sofria daquela síndrome de Gabriela*: "Eu nasci assim, eu cresci assim..." e nunca mudara seu pensar, nem a forma que fazia as coisas desde mil novecentos e sempre. Passar pelo mesmo caminho, comprar as mesmas coisas, fofocar as mesmas notícias e viver a julgar o pobre cego. Este que, com suas limitações, tornar-se-à ilimitado aos olhos de quem via a velha chateada. E ele, contudo, passara todos os dias juntando as folhas e tentando desvendar os mistério das cores destas, sem ao menos saber, ou entender, em sua essência, o que é uma cor...

sábado, 2 de abril de 2011

Moço


Esse moço brinca de bom-moço!
Brinca nada, é verossímil. 
- Ei moço, volte, tu não me trouxe desgosto,
Só bom gosto, em um esboço
de mente amada,
Aberta, entrelaçada,
Aqui comigo, neste quarto-janela-casa
Porta-cama-computador
Sem dor,
Só amor.
- Ei moço, sei que estarei e estarás sempre aqui.